sábado, 21 de junho de 2008

Beija-me o mar





Adormece no inicio das ondas
Beija-me o mar
Embala-me o sono neste som
De espuma, sal e horizonte
Que o ritmo do meu peito é da água
E embarco neste ondular
Que do meu passado me arranca
Sem que dos olhos caia a mágoa
Sem que o tempo diga até amanhã
Sem que o dia seja estrelas
Sem que saiba viver sem amar.
Beija-me o mar
Na minha maré de ser mulher
No meu corpo a embalar
Tudo que fui, sou e serei
Sem me arrepender, sem me encontrar

Erro de cálculo

Quantos trilhos, temos que caminhar
Quantos encontros falhar
Quantos sorrisos perder
Quantos sonhos deixar de sonhar
Até entender
O erro de cálculo
De uma rota mal traçada
De um olhar que não deveríamos ter visto
De uma palavra que não deveríamos ter ouvido
De um gesto diametralmente oposto ao entendido
De um dia menos brilhante que o querido?
Quantos olhos, temos de sofrer
Quantos horizontes depreender
Quantos relógios deixar de bater
Quantos batimentos desfazer
Até entender
O erro de cálculo
De viver???

domingo, 15 de junho de 2008

A ti em vôo livre de amar




As asas de ser, alado, não têm limites
Os vôos não têm penas, só liberdade
E neste desejo de voar até ao topo de nós
Deixo-me levar na corrente de ar
Respiro o teu olhar
Sinto o vento voar nos cabelos.
E quando me encontro no céu, a sós
Sobrevoando os olhos da cidade
Aceito todos os teus convites
E sei exactamente que este voar
É o bater do meu peito a sonhar
Com a tua boca na minha e as tuas asas
Abertas a planar
Neste corpo que já não é só meu
Também o é do teu olhar.
Ao Amor da minha vida que me entrou de rompante pelo meu peito e me fez ouvir o estrondo liberto do meu coração, que me inspirou como nunca e me despertou para olhar, dizer, sentir e amar...OBRIGADA AMOR!

POIESIS





48 ANOS DEPOIS DE NASCER


Finalmente surgiu. Uma das promessas que fiz a mim mesma nesta vida foi a de escrever e publicar 1 livro. E assim, depois de passados quarenta e oito anos, chegou...em conjunto com os meus parceiros de viagem das palavras...POIESIS.
Gostei tanto de estar aqui...de dizer aqui...de sentir aqui.
Ângelo Rodrigues pela Minerva convidou. Aceitei. Gostei de ter aceitado.
Obrigada...vou continuar!

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Quando eu Acreditava....

...escrevia, tal como hoje, no que acreditava. Escrevia, tal como hoje, com o coração. Sentia da mesma forma, mas tinha uma esperança diferente na humanidade....Hoje, talvez tenha ganho em realismo e perdido nos sonhos. Como ensinava Sidharta, talvez esteja mais próxima do caminho do meio. Quando em 1999 resolvi vir às raízes do que sou, encontrei um Alentejo bem diferente do que tinha criado na minha imaginação. Do imaginário da infância, tinha-me ficado um Alentejo, quente, com cheiro a liberdade, com Natais gulosos, e as tias, os tios, as primas e os avós á lareira...a realidade...a de há quase 10 anos e a de hoje é bem diferente. Os tios e os avós mudaram de morada...as primas entraram pelas suas vidas dentro...e já não há Natais daqueles...agora há outros, diferentes.
Quando cá cheguei para aqui viver, cheia de esperança, escrevi um pequeno texto que publiquei na "Folha de Montemor". Um amigo meu, que foi membro do partido comunista (noutra vida), leu-o e teve uma reacção inesperada...achei inicialmente que ele iria gostar, mas não, fartou-se de vociferar...chamou-me irrealista, que o Alentejo não era nada daquilo que tinha escrito, que era a luta e a fome e a miséria...que estava a tapar a realidade com prosas poéticas inconsistentes...enfim...o mais engraçado é que hoje, embora por diferentes motivos, dou-lhe razão. O Alentejo não é nada do que sonhei e escrevi. Talvez não seja possível ainda, depois de tantos anos de sofrimento, opressão e fome, fazer um Alentejo de gente aberta, feliz, evoluida, que não passe grande parte da sua vida a remoer o seu semelhante....talvez um dia...Entretanto, para que quem se deu ao trabalho de ler esta dissertação sobre o passado, presente e futuro desta região a sul de Portugal...deixo aqui o referida texto. Julguem por vós mesmos...

CHEIROS

Entrei na cozinha e o ar estava inundado de odor a pêssegos. Deixei-me envolver pelo cheiro e fui levada pelo vórtice das memórias que o tempo distraiu. Entrei pela infância como quem passeia na montanha russa da feira impopular dos tempos de criança, que tanto nos enternece como nos atira para as terras movediças da inconformidade. Mas apesar de todos os arrependimentos, a memória deixa-nos na boca odores com o sabor da inocência e o desejo de reter pelos tempos imemoriais os cheiros que só existem porque os cheiramos.

Seguindo atrás do vento cheguei ao lugar com cheiro a terra, aquele cheiro seco e solarengo que nos sussurra em jeito de aviso ou predestinação levado por Aeolo aos ouvidos de quem já viveu aqui, para não cair na tentação de deixar secar o peito. É assim o meu Alentejo! Envolto nos cheiros da terra, pincelado pelo odor dos pêssegos, das cozinhas, das casas brancas de riscas azuis como o céu, dos terraços apontados ao divino, do sol mais quente que todos os sois que conheço, das gentes que teimam em não deixar secar o coração.

Sabe quem já passou por estas ruas empedradas de calor intenso a derreter a vontade de dar mais um passo, que não é fácil reter o cheiro deste Alentejo esquecido para alguns, desejado por tantos outros, subjugado por outros mais. Sabe quem vive aqui, quem se levanta pela manhã banhado em cheiros, que aqui o Sol não seca nem corrói, a terra não enruga e a vontade não desiste. É assim o meu Alentejo!

Terra das amplitudes tão térmicas como o horizonte, fustigada pelo vento que arde a alma, queimada pelo frio que nos entra pelo corpo dentro a fazer-nos desejar o estio. Também o inverno aqui tem cheiro a terra queimada pela chuva oblíqua a declamar poemas nas estórias deste povo sobre a capa da história. Apercebo-me delas pelas mãos crespas do trabalho de sol a sol, de tempestade a tempestade. Tocam-me pelo olhar dos velhos a desfiar dominós recitando dentro das palavras a enorme sabedoria de uma vida inteira de trabalho, transpirando a alquimia dos segredos que com eles ficarão para sempre encerrados se não lhes perguntar-mos docemente quem são e porque aqui passaram para ficar.

Não perco porém a esperança de que os aromas múltiplos deste povo perdurem eternidade fora, misturados com o odor dos pêssegos, da terra mãe desta sabedoria que se transporta de vida em vida. É assim o meu Alentejo! O nosso Alentejo, os que o amamos porque o nosso corpo dele faz parte e as nossas vidas, por muito distantes quem tenham andado, só existem porque nutridas pelo cordão umbilical deste sol quente batido a chuva, corporizado nos sobreiros, nos empurram a vontade de seguir em frente, sempre em frente. Este crescendo de vida dança-nos no ventre e coreográfa-nos o ser, os seres que o Alentejo abraça e beija longa e ternamente. Para quem não saiba ou não queira saber, fique sabendo: é assim o Alentejo!


Vanda Caetano
Algures em 2001

quinta-feira, 8 de maio de 2008

FOI HÁ QUASE 10 ANOS

Foi há quase 10 anos....que aqui cheguei, cheia de esperança e vontade de fazer coisas novas, neste Alentejo seco e árido para quem vem de novo, mesmo que retorne, mesmo que tenha aqui raízes. Nessa altura, pensava ser possível fazer parte deste "mundo". Hoje acho que não.
Segunda feira foi a enterrar um amigo. Na verdade, mais amigo do meu pai que meu....talvez pela diferença de idade ou apenas de vivência social, política, vivência....ponto. Eu sempre lhe chamei Pinto de Sá pai. Pai do presidente da Câmara deste Montemor-o-Novo, onde vivo, encontrava-me por aí, nas mais variadas alturas desta minha vida alentejana e falávamos. Muito. Desabafos, a maior parte das vezes, revoltas, constatações. Tinha mau feitio...diziam.Eu gostava! Diziam muitas coisas...que foi da pide...imagine-se!!!...companheiro de luta do meu pai, no período pós 25 de abril, sempre foi um homem de esquerda, sempre se assumiu. e AGORA??? o QUE IRÃO DIZER MAIS? Podem dizer que trabalhou até ao fim. Que sempre se quiz manter activo e vivo. Que era ele mesmo, apesar do que diziam!!! Eu gostava! Dizia tudo o que lhe apetecia. Não se calava. Era austero. Não mostrava os dentes. Não era hipócrita. Eu gostava dele. Morreu. Não soube. Só hoje. Pinto de Sá pai...vou ter saudades!

sábado, 12 de janeiro de 2008

Corpo em curvatura








O tronco curva-se sobre a terra, rugosa a sua pele dos anos passados sobre o calor ardente do Alentejo, o frio extremo do inverno, as chuvas sacodidas pela ventania. Verde o musgo, vai subindo em conquista do tronco, formando um casaco que envolve e protege até que chegue o estio.

Rosas no deserto









Chamam-lhe a rosa do deserto. Não sei se por ser uma planta carnuda da familia dos cactos ou se pelos tons vermelhos do Sol do deserto ao cair da noite. Linda flor/cacto que se multiplica como se não houvesse amanhã e assume tonalidades desde o verde, aos mais variados tons de rosa e vermelho, diria mesmo que assume nuances sensuais, lembrando que o deserto do prazer acaba quando é "desflorada" a rosa e as tons vermelho rosado se abrem para os novos horizontes dos sentidos.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

A "minha" árvore está sempre lá









Desde que tenho memória, dar voltas ao Castelo teve sempre um sabor especial. As mães gostavam de "quadrilhar" um bocadinho em longas conversas de comadres, comiam figos de piteira e dos outros, enquanto nós, as primas andávamos em aventuras mil, pelos "bosques encantados" da verdejante mata. A pé, de bicicleta, de patins...subíamos árvores, colhíamos flores, por entre gargalhadas e às vezes uns socos e uns pontapés disfarçados, não fossem as mães dar por isso... e então era o bonito. E se era Verão, as amoras sujavam os dentes e a roupa e nós contentíssimas, como se os dias fossem uma sucessão de felicidades sem par e eram.


Mais tarde, mas não muito mais, casei. Tinha quinze anos. E lá vim de Lisboa em lua-de-mel, dar voltas ao Castelo, subir à torre do relógio, para em pose de quem queria parecer feliz, tirar as fotos da "praxe".Voltei, várias vezes como que em vidas diferentes. Voltei um dia para ficar...acho...não sei bem. Dei várias voltas ao Castelo. Para manter a linha, para namorar, para chorar, para passear as minhas crianças,para ver as várias formas que as árvores encontram para cumprimentar as estações.
Vi das ameias o nascer do sol, no alto das muralhas deitei-me ao pôr do mesmo, observei a cidade e os homens e as mulheres e as criançinhas e os outros...de cima do monte maior.

Depois chegou o Rui...Horta( energico "carneiro"), ocupou, em boa hora, o Castelo com os seus guerreiros e os seus subditos, dançou e encantou, coreografou e lá continua, assumiu a pose de Rei e Senhor, vidi,vini,vici...e dançai agora senhores que é hora de dançar!
Esplanada no Verão, raves e filmes...muita cultura numa terra de pouco pão. E que pena que do alto das ameias não se atirem pães e assim pudesse Deuladeu dançar mais aconchegada, numa terra onde se finge estar tudo bem e se enconde a pior das misérias a de não se saber lutar e pensar-se que sim.E mais uma voltinha ao castelo...

Num certo Maio, dentro de muralhas, fui "maga" medieval vestida de "marroquin" violeta e deitei as sortes, conheci o Mário do Vivarte( grande "carneiro" de sábias barbas), o João do Ambar, a Sandra e o seu orgasmático pão-de-rala, a Paulinha, o António, a Briolanja e um escultor de terra e barro, basco, cujo nome não me recordo, que falava de gnomos e do tempo dos últimos dragões e esculpia-os na terra como se lidasse com eles "tu cá, tu lá", a Zara cuja "mendiga" encantou, como aliás, todos os seus desempenhos e todas as suas personagens, e o puto do Vivarte que estava a descobrir o mundo, o visível e o outro e achava que eu tinha todas as respostas...a Elisa, enamorada do saltimbanco françês, que animava o povo como seu grupo, ao som de gaitas e pandeiretas e fazia os olhos da Elisa brilhar naquele lindo verde pardo, que era na altura, mais verde e menos pardo...comprei um anel com uma pedra violeta como o meu vestido e ainda hoje acho que tem uma magia especial...a de me transportar aos portais do que fui e moldar as artes do que sou....zanguei-me com o Jack...pela enézima vez...como tantas outras vezes depois, comi costela de novilho em sangue, medievalmente à mão e estava tão boa...e bebi chá na tenda do João das Arábias...chá de menta e especiarias e outras coisas que não sei, mas que deixavam um sorriso pateta estampado nas nossas caras, com um ruborzinho bom, quase erótico e um desejo escondido debaixo das saias...ai! que disparate...as coisas que ouso dizer....e comprei perpétuas roxas na tenda dos chás, para afinar a garganta e cantar.


Muito mais tarde...acho mesmo que noutra vida...dentro desta...voltei. Andei de mãos dadas a namorar como as "gaiatas"..apaixonada e doida de felicidade, a fotografar e a rir como se amanhã pudesse não estar lá... e era uma pena perder este momento único...ao lado do meu homem...amor como não tive igual...a outra metade de mim...que caminha comigo ainda e espero por toda a vida, calcorreando as clareiras do castelo que sou eu, dentro das muralhas de outro castelo...nesta terra onde fui feita..que é também a de meu Pai e do seu Pai, meu Avô...que me passeava ainda tropega por estes caminhos...por estes castelos de princesas e dragões. Neste castelo partilho paisagens e emoções, beijos e olhares de puro amor, agito os sentidos de fogo que sou eu e ele em turbilhões de felicidade e paz. Com ele aprendi o prazer de fotografar e espero aprender a técnica, reaprendi o prazer da escrita, que estava adormecido em tristeza, conheci o imenso prazer de me amar e de amar sublimemente o seu sorriso, o seu olhar, as suas mãos. Porque ele cabe todo dentro do meu abraço! Juntos partilhamos estes caminhos, este castelo, somos personagens de outros tempos, os dragões são nossos amigos e os gnomos brincam connosco às escondidas.Um dia voaremos, nas asas de um unicorneo branco, sobre este castelo encantado e ficará para sempre plasmada no universo a nossa felicidade.

Nestes anos todos, este castelo ergue-se e impõem-se espisódicamente na minha vida, os seus carreiros, as pedras velhas de tantas história, as árvores e a "minha" árvore, que desde que me lembro, está lá no cimo da estrada a olhar-me, com o seu tronco cotovelo apoiado no vento, que me olha como se me protegesse de algo que eu própria não sei o que é e que eu vou fotografando ao ritmo das estações...cheinha de folhas verdes, nua e de ramos retorcidos, ondulante e sacodida pelos ventos mais fortes deste Alentejo, que sabe ser muito frio, molhada do choro do céu saudoso do verão, beijada pelas papoilas lindas, estentidas aos seus pés como um tapete vermelho e aveludado...sempre lá...para que eu possa sorrir ao vê-la ou chorar aos seus pés os meus infortunios ou abraçar o seu tronco e trocar emoções e energias vigorosas. A "minha árvore" que eu só apresento pessoalmente a quem amo, fica aqui...virtualmente para o deleite dos vossos sentidos. Espero que gostem tanto dela como eu...e se a encontrarem um dia que venham a este Castelo, por terras de Montemor, deêm-lhe um beijo meu. Talvez ela vos conte um qualquer episódio da minha passagem por aqui.

Tesouros



















Guardados estão os tesouros de ser, por vezes tão fundo e em lugares tão obscuros, que nem entendemos que os vivemos, que os somos...Apreendemos por vezes, pelos olhos brilhantes das nossas crianças, pelo amor que nos visita de vez em quando pela vida fora,pelos mendigos que deshabitam as ruas onde fazemos compras, pelos pássaros que riscam o azul das nuvens, pela respiração ofegante depois do pesadelo...que existem tesouros inestimáveis e raramente os olhamos.

No meu caminho



No meu caminho, em perspectiva, estás tu, porque te escolhi ao encontrar-te na outra ponta de mim. Esta partilha de saberes, olhares e beijos, serão a tela multi-cromática dos nossos Invernos, mesmo quando se disfarçam de Outono, pintura digital do que vejo em ti, de ti, por ti.
As palavras tomam a forma de imagens e declamam poemas de cor e nostalgia. Já tenho saudades daquilo que vou ser contigo!

Espreito por trás do Sol


Quando o sol se cansa de ser belo, esconde-se. No horizonte, porém, teimosas cores desejam perdurar. Os nossos olhos deliciam-se em tal teimosia e desejam mais! Os desejos, esses prendem-se na teia do tempo e não nos resta mais nada que o olhar.